Teatro da Paz, Belém. Fonte: https://www.agenciapara.com.br/noticia/41318/theatro-da-paz-completa-145-anos-na-proxima-quarta-feira-15#lg=1&slide=0 acesso em 06/11/2024
Popularmente, é comum nas aulas de História, conceituar-se a Belle Époque, como: o período de cultura cosmopolita nas cidades da Europa, tendo em especial, a França como ponto crucial de referência na produção artística e cultural do ocidente, porém, segundo Mérian (2012, p. 135), o termo “Belle Époque” era desconhecido pela população francesa até o final da Primeira Guerra Mundial. Conforme Gonçalves (2022, p. 2) na realidade, os seus conceitos estético e de urbanização passaram a ser valorizados como uma tentativa de superar os trágicos eventos da guerra através do resgate ao que se antecedera a ela.
Neste sentido a França abarca protagonismo como centro cultural da bela época e se estabelece como modelo a ser seguido pelos países que desejavam atingir o mais alto patamar de “civilização”. Este período marcante, compreende a 1971 com o fim na guerra Franco-prussiana e 1914, com o início da Primeira Guerra mundial, rememora uma Paris que passava por um novo processo de civilização e progresso, que se deu após a derrota de Napoleão Terceiro, era, portanto, um momento fundamental para a definição da identidade francesa, que orgulhava-se de sua história como imponente nação europeia.
É com a gestão de Paris sob o comando do Barão de Haussmann que a cidade “passou por modificações estéticas que favoreciam as elites econômicas e afetavam negativamente as camadas empobrecidas” (Gonçalves, 2022, p. 2). Conforme reforça, Mérian (2012, p.140):
(…) as autoafirmações positivas de Paris se restringiam apenas às elites. No que tange às diferenças sociais, enquanto a burguesia utilizava os vagões de primeira classe e frequentava os lugares da moda, o proletariado permanecia em condições precárias, compondo as chamadas “classes perigosas”, que não frequentavam os bulevares e parques e permaneciam no subúrbio sem saneamento.
É necessário destacar, que a “adaptação da Belle Époque” para o Brasil seguiu os mesmos caminhos que a francesa, excluindo-se totalmente as classes mais pobres da sociedade. Ao delimitar a Belle Époque a territórios brasileiros, a conceituação mais bem empregada tende a ser: “O movimento de embelezamento das cidades como tentativa de adaptar a Belle Époque para o Brasil” (Gonçalves, 2022, p. 3) e ao adentrar nas vias amazônicas, por sua vez, podemos citar um clássico conceito presente nas aulas de História ou de Estudos amazônicos: “o período de ‘embelezamento’ das cidades de Belém e Manaus”. Na Amazônia, a Belle Époque se tornará possível por sua diferenciada estratégia econômica, o que justificará o inevitável período de prosperidade, conforme, Souza (2002p. 32):
No Grão-Pará e Rio Negro, a economia era fundada na produção manufaturada, a partir das transformações do látex. Era uma indústria florescente, produzindo objetos de fama mundial, como sapatos e galochas, capas impermeáveis, molas e instrumentos cirúrgicos, destinados à exportação ou ao consumo interno. Baseava-se também na indústria naval e numa agricultura de pequenos proprietários.
“A cidade de Belém foi construída para ser a capital administrativa da região e para isso recorreu-se ao arquiteto e urbanista bolonhês Antônio José Landi” (Damasceno e Vieria, 2023, p. 10). Uma mudança radical na estética da capital paraense seria proporcionada graças ao avanço da economia da região, gerada pelo chamado ciclo da borracha:
O desenvolvimento da economia do látex na Amazônia no período de 1870/1910 está intrinsecamente ligado às transformações ocorridas a nível da reprodução do capital e da acumulação de riquezas pela burguesia internacional. Em decorrência do boom gomífero, Belém assumiu o papel de principal porto de escoamento da produção do Látex, além de se tornar a vanguarda cultural da região. O processo de urbanização experimentado pela cidade de Belém do Pará, a partir da segunda metade do século XIX, não está assim ligado somente à intensificação da vida industrial, como ocorreu nas cidades europeias e americanas, mas pela função comercial, financeira, política e cultural que desempenhara durante a fase áurea da borracha (Sarges, 2000, p. 89).

Bondinho na Belém da Belle Époque em imagem colorizada. Fonte: https://www.facebook.com/belemdopassado/photos/a.1430888137132389/2609591905928667/?type=3 acesso em 06/11/2024
Indubitavelmente, dentre as diversas cidades brasileiras que seguiram o modelo francês de modernidade, como Fortaleza, Recife e São Paulo; Belém e Manaus possuíam a peculiaridade da economia do látex e se estabeleceram como as cidades financeiramente mais estruturadas para receber o “embelezamento” pretendido para os barões da borracha.
Ao restringirmos um pouco mais o nosso trabalho à “Belle Époque paraense”, por motivos claros de localização da cidade de Santa Izabel do Pará, nos deparamos com um cenário peculiar, em um período em que esta região se torna o centro de um dos maiores momentos de desenvolvimento e que apontava para um progresso “inimaginável”, Belém destaca-se como foco desta prosperidade restrita, que vinha acompanhada de múltiplas desigualdades sociais.
Com a borracha valorizada e “o dinheiro correndo a rodo, naturalmente Belém oferecia um nível de vida melhor que qualquer outra cidade brasileira” (Rocque, 1973, p. 26). “Esta conjuntura permitiu as intervenções e melhorias seguidas pelos ideais de modernidade, progresso e civilização, introduzidos pelo Poder Público na construção de uma Belém moderna, período que se estende até o final do ciclo, aproximadamente em 1910” (Soares, 2008, p. 17).

Palácio Antônio Lemos, Construído em 1865, por José da Gama Abreu.
https://www.facebook.com/BrazilImperiu/photos/a.2082430488753824/3146966292300233/?type=3 acesso em 06/11/2024
“Grandes construções foram feitas durante esse período e atualmente são patrimônios dessa época. Paralelo a esse movimento existiam grandes nomes que trabalhavam na modernização das cidades de Belém e Manaus, em Belém um dos principais interessados nesse processo era o Intendente Municipal da época, Antônio José de Lemos (1843-1913)” (Rosa, 2015, p. 431).
Em nosso trabalho que trata da Belle Époque amazônica, bem como suas influencias na formação da cidade de Santa Izabel do Pará, tendo recebido construções deste período, cabe destacar a figura do Intendente Antônio Lemos enquanto responsável por estes processos de embelezamento que se estenderam até mesmo a regiões mais distantes. Portanto, quem foi Antônio Lemos? Conforme Rocque (1977):
“Antônio José de Lemos nasceu em São Luís, no Maranhão, dia 17 de dezembro de 1843. Filho de Olivia de Souza Lemos e do capitão-mor da antiga milícia Antônio José de Lemos. Teve uma infância e adolescência humilde. Realizou o cursou secundário no ‘Liceu do Maranhão’. Com dezessete anos de idade, inscreveu-se na Marinha de Guerra. Seguiu carreira militar e, no dia 2 de fevereiro 1867, aos vinte e quatro anos, Lemos pisou pela primeira vez em solo paraense na condição de secretário particular do Almirante e, em seguida, oficial da quarta classe do Corpo da Fazenda.”
Podemos afirmar, sem que se cometam hipérboles, que Antônio Lemos figura entre os maiores nomes da política paraense, visto que, esteve à frente da intendência de Belém por quatorze anos seguidos (1897-1912), tendo sido eleito por cinco vezes consecutivas para o cargo. Durante seu governo, montou um ambicioso projeto de modernização de Belém que visava atender, exclusivamente os interesses da elite da borracha, conforme Pantoja (2022, p.44.):
(…) a cidade começou a ser modernizada, sofrendo transformações mais expressivas durante o governo do Intendente Antônio Lemos (1897-1911), quando ocorreu a sua renovação estética, período em que foram projetados o porto de Belém, o Orphelinato Antônio Lemos (1893), o mercado do Ver-o-Peso (1901), a construção do Asilo da Mendicidade (1902), a implantação dos bondes elétricos e da iluminação a gás firmada por 44 contratos com a “Pará Eletric Railway and Lighting Co. Ltd” em (1905), além da reforma de praças e bosques.

Mercado de Ferro Ver-o-Peso. Ícone da Belle Époque em Belém. Fonte: https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g303404-d2373173-i140636344-Mercado_Ver_o_Peso-Belem_State_of_Para.html acesso em 06/11/2024.
“Apesar de medidas esparsas tomadas por governantes anteriores, a remodelação da cidade se deu basicamente no Governo do Intendente Antônio Lemos (1897 – 1912). Sua administração coincidiu com o apogeu das exportações, já que 1911 foi o ano que marcou o ápice da balança comercial.” (Fabris, 1987, p.151). Rocque (1973, p. 26) complementa:
(…) havia um ininterrupto intercâmbio com Lisboa, Paris, Londres, cidades onde a mocidade rica do Pará ia estudar, trazendo de lá os costumes apreciados por Euclides da Cunha, por Duque Estrada e por tantos outros viajantes. Em verdade tudo colaborava para realçar ainda mais o trabalho desenvolvido por Lemos. Não bastassem as obras, a limpeza, as novas avenidas, os suntuosos jardins, Belém era uma cidade cosmopolita, com grandes lojas de modas parisienses, grandes cabarés apresentando belos espetáculos dos quais participavam bailarinas europeias. E o que é muito importante: Uma excelente praça comercial. Porém, sobre a Belle epóque amazônica, três pontos precisam ser reafirmados, o primeiro era o objetivo elitista por trás dos projetos de modernização idealizados no período do governo de Antônio Lemos, aponta-se que “dos ares fétidos das habitações populares, o intendente vislumbrava aproximar Belém de suas congêneres às margens do Tamisa e Sena” (Figueiredo, 2012, p. 9), para que estes objetivos fossem cumpridos, era necessário limpar os indivíduos indesejáveis, mesmo que para isto precisasse tomar medidas mais severas.

Coreto de Ferro, praça Batista Campos, Belém.
Fonte: https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g303404-d4891688-i241754124-Praca_Batista_Campos-Belem_State_of_Para.html acesso em 06/11/2024
O segundo rememora que “a força de trabalho que sustentava a economia da borracha era em sua maioria dos índios, caboclos e nordestinos. Esses trabalhadores, eram submetidos a um trabalho rigoroso e mal pago, que geravam a riqueza dos coronéis da borracha” (França, 2016, p. 351), o cruel sistema de aviamento é a característica pura e simples do que foi feito a estes trabalhadores que sustentavam os luxos de uma burguesia em ascensão, conforme Sarges (2002, p. 106) “as relações sociais de produção entre seringueiros e os ‘patrões’ não se distanciaram muito das relações existentes entre o senhor de engenho e os escravos” isto porque, endividados, o trabalhador da extração do látex (em sua maioria nordestinos) se via preso a seu senhor por “débitos” injustamente contraídos.

Luxos na cidade – Belém, 1916.
Fonte: https://realidadeurbanas.blogspot.com/2011/03/belle-epoque-amazonica.html acesso em 06/11/2024

Miséria no campo: Seringueiros em regime de semiescravidão na extração do látex.
Fonte: https://realidadeurbanas.blogspot.com/2011/03/belle-epoque-amazonica.html Acesso em 06/11/2024
E por fim, “o projeto de modernização gestado nos primeiros anos do regime republicano pelo intendente Antônio Lemos tinha por base os ideais de civilização e progresso, implicando mudanças radicais dos hábitos e costumes da população local.” (França, 2016, p. 351) o que implica dizer que era necessário seguir normas éticas e de forte conduta se o indivíduo queria ser considerado civilizado o suficiente para socializar com o restante dos cidadãos, valia-se inclusive da aplicação de multas se necessário fosse para a manutenção da “civilidade”.
no governo de Lemos foram implantadas medidas severas de urbanização e modernização da cidade, como padronização das casas, bairros planejados, higienização da cidade, para que Belém se transformasse na Paris N’América, aquele que não se adequasse a essas regras deveria pagar multa para a prefeitura de Belém. (ROCQUE, 1973, p. 295).
“A ideia de progresso nesse período foi propagada em Belém e seus arredores, foram construídos palácios, viadutos, importação de ornamentos e edificações metálicas, ampliação e arborização das vias de Belém, entre outros. Neste contexto, houve o crescimento de instituições de amparo” (Rosa, 2022, p. 61) diante deste ininterrupto desejo pelo embelezamento, o Intendente Antônio Lemos buscou as áreas mais afastadas da cidade para a construção de prédios que fossem úteis no controle da circulação de determinadas indivíduos, entre eles indigentes.

Asilo da mendicidade, av. Almirante Barroso, c. 1900 / Álbum de Belém (1902)
Fonte: https://fragmentosdebelem.tumblr.com/post/38624658107 acesso em 06/11/2024
“Com o avanço urbanístico a classe economicamente menos favorecida foi afastada do centro de Belém, os cortiços foram extintos, assim como as casas humildes” (Rosa, 2015, p. 431) além disto, a construção das instituições de amparo, é cercada por interesses políticos que se reproduziam da maneira mais constrangedora que se possa imaginar e tinham por consequência a mais ampla mostra da desigualdade social.
Uma grande preocupação do governo de Lemos, era representada pela “discussão em torno da presença de pedintes nas ruas de Belém que envolveu vários setores da sociedade local, com ampla repercussão nos jornais da capital” (Duarte, 2007, p. 3) era um problema que precisava ser resolvido com urgência, reclamado pelos setores mais altos da sociedade que se sentiam assediados pelos pedintes, portanto
A solução encontrada consistiu na criação de um asilo público, destinado a abrigar gratuitamente todos os indigentes que esmolavam nas ruas da cidade. Coube, então, ao Conselho Municipal de Belém, através da Lei no. 238, de 3 de julho de 1899, determinar a criação do Asilo da Mendicidade. (Duarte, 2007, p. 4)
Em seu artigo 3º, o texto legal, estabelecia normas que deveriam ser aplicadas a partir da data de inauguração do Asilo: (…) fica proibido, n esta cidade, esmolar à caridade publica nas ruas, praças, igrejas e edifícios públicos ou privados, sendo recolhido ao referido hospício todo aquele que for encontrado naquele exercício”.
As claras posições políticas por trás da criação destes espaços, somam-se as estapafúrdias formas de solução, que tinha por objetivo a segregação dos “infelizes” indigentes, como forma de embelezamento e manutenção do progresso, cabe ainda pontuar que a distância destas construções do centro de Belém, nos permite refletir os desejos que ampliar o distanciamento destas pessoas do “mundo civilizado”, já que no caso do Asilo da mendicidade, foi construído na atual almirante Barros, que antes era muito distante do centro de Belém.
Ao refletirmos sobre a construção do Orphelinato Paraense, mais tarde renomeado como Orphelinato Antônio Lemos, a própria localização dele segue a lógica do distanciamento dos centros da “Paris n’América” situando-se a mais de 35 km do centro do progresso. O olhar cuidadoso do historiador permite, portanto, perceber estes interesses políticos por detrás da construção de um monumento, que detinha antes de mais nada a necessidade de agradar a elite, afastando os indesejáveis, dentre estes, se incluam as órfãs?
Referências bibliográficas:
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FIGUEIREDO, Aldrin Moura. Apresentação. In:SARGES, Maria de Nazaré. Belém: Riquezas Produzindo a Belle Époque (1870-1912). Belém: Paka-tatu, 2012.
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MÉRIAN, Jean-Yves. A Belle Époque francesa e seus reflexos no Brasil. A Belle Époque Brasileira. In: COLÓ-QUIO INTERNACIONAL A BELLE ÉPOQUE BRASILEIRA, 2012, Lisboa. Atas do […]. Lisboa Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2012. p. 135-162.
SARGES, Maria de Nazaré. Belém: riquezas produzindo a Belle Époque (1870 − 1912). 3 ed. Belém: Paka-Tatu, 2010.
SARGES, Maria de Nazaré; CHALHOUB, SIDNEY; UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Memórias do “velho” intendente: Antonio Lemos – 1869-1973. Campinas, SP, p. 44, 1998. 304 f. Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas.
PANTOJA, Suellem Martins. A organização do ensino primário municipal no governo de Antônio Lemos 1898-1908. Dissertação (Mestrado em currículo e gestão da escola básica)- Universidade Federal do Pará. Belém, 2021.
PARÁ. A instrucção publica na administração do Exmo. Sr. Dr. José Paes de Carvalho, Governador do Estado. Pará / Milano. J. Chiatti & C. Editores, 1900.
ROCQUE, Carlos. Antonio Lemos e sua época. Belém: Edições culturais, 1973.





