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Santa Izabel do Pará: uma breve História de origem.

Santa Izabel do Pará, é uma cidade que compõe a região metropolitana de Belém, localizada a 44,8km da capital paraense. Passa por duas categorias antes de ser município, sendo uma vila, uma subprefeitura e por fim conquista sua emancipação, advinda “por meio decreto nº1.110 de 08/12/1933, instaurado no dia 07 de janeiro de 1934. (SOUZA, 2012). Atualmente, possui dois distritos: Americano e Caraparu. A população estimada é de 73.019 pessoas e detém uma economia baseada em “extrativismo mineral e vegetal (não madeireiro) construção civil, industrias, comércio, agropecuária como a criação de bois, búfalos, porcos, cavalos, aves, coelhos, abelhas e peixes; agricultura de subsistência e comercial (…)” (SOUZA, 2012, p. 159).

Praça de entrada da cidade de Santa Izabel do Pará, com imagem da padroeira da cidade “Santa Izabel de Portugal” Fonte: Cleverson Cancela.

No entanto, Santa Izabel passaria por diversas tentativas de povoamento, antes de se tornar oficialmente município, para esta dimensão propositiva, achei necessário apontar as origens da cidade, até para que se tenha uma possibilidade de orientação aos professores que pretendem trabalhar as origens da cidade em sala de aula, este breve texto trata de um breve período de tentativas de povoamento e a consequente emancipação desta porção da região bragantina que compõe um pequeno espaço da Amazônia.

Praça Matriz de Santa Izabel do Pará. Fonte: Cleverson Cancela.

A cidade de Santa Izabel do Pará, tem origens que remontam ao período colonial do Brasil, quando as terras que um dia se tornariam o atual município paraense, receberiam suas primeiras visitas pelos rios, “O início do povoamento das terras de Santa Izabel do Pará, por colonizadores estrangeiros, ocorreu no século XVII, ne mesma época da colonização de Belém porque as terras pertenceram a Belém até o ano de 1933” (SOUZA, 2012, p. 91).

Rio Caraparu, um dos mais belos pontos turísticos da cidade de Santa Izabel do Pará. Sendo o provável primeiro caminha de incursões pelas antigas terras do período colonial. Imagem: Cleverson Cancela.

 “A colonização do distrito sede que corresponde à cidade com localidades e povoados adjacentes, ocorreu a partir da década de 1709 (século XVIII) com a instalação do sistema colonial de sesmarias, porém seu desenvolvimento econômico se efetivou coma criação do ‘novo’ núcleo colonial de Santa Izabel, no século XIX.” (SOUZA, 2012, p. 91).

Porém, a criação dos primeiros vilarejos que um dia fora Santa Izabel, “remete-nos ao contexto das últimas três últimas décadas do século XIX.  Naquele momento, ocorria seca prolongada nos sertões do nordeste brasileiro, surto de febre amarela, peste bubônica e varíola na região em torno de Belém, o “boom” da produção e exportação da borracha nativa da Amazônia para o mundo industrializado e o processo de colonização da região Bragantina” (PAZ, 2012, p. 57)

Durante o período imperial do Brasil, aponta-se que “nas incursões entre os dois centros urbanos, Belém e Bragança, havia uma área completamente despovoada, aguardava a colonização” (ARAÚJO, 1981, p.27) esta área era a que por muito tempo foi conhecida como zona Bragantina e que hoje é composta por vários municípios, dentre eles Santa Izabel. A busca pelo progresso e desenvolvimento desta região, que na época era mata virgem, está intrinsecamente ligada a necessidade da criação de uma via terrena entre os municípios de Belém e Bragança, que pudessem facilitar a viagem e o transporte entre as cidades.

Neste período surgiria a possibilidade de criação de vilas que povoassem o caminho por terra, visto que, haviam dificuldades na viagem fluvial entre as duas cidades, Araújo (1981, p. 25) destaca o complexo caminho a ser percorrido: “Devido a correnteza das águas do litoral (…) preferia-se a rota do interior, indo por terra até Ourém e, daí, pelo rio Guamá até Belém, desta forma eram cobertas 25 léguas de distância entre Belém e Bragança em 6 ou 8 dias de viagem.” Em diante, diversas tentativas de colonização foram feitas a área, a primeira delas veio a partir da imigração de estrangeiros, conforme Araújo (1981, p. 19).   

“Os planos do império era promover a colonização estrangeira no pará, mas tal projeto fracassou, pois só existem referências a colônia americana de Santarém como projeto realizado. Na época não existiam condições financeiras para garantir tal empreendimento. Graças, no entanto a repercussão do ciclo da borracha nas décadas de 1870-1880, as condições foram estabelecidas para a povoação e colonização da região bragantina com a criação, em 1875, da colônia de Benevides”

A colônia, que depois seria chamada de Santa Izabel de Benevides, receberia em um primeiro momento – 25 de abril de 1875 – 68 imigrantes, entre franceses, italianos e espanhóis. Em 14 de junho de 1875, a nova colônia de Benevides estava finalmente pronta para ser inaugurada. “A colônia de Benevides foi o primeiro passo da criação da Estrada de ferro de Bragança” (ARAÚJO, 1981, p. 28), ou seja, o primeiro passo para a ligação entre as duas maiores cidades da província da época. No entanto, a primeira necessidade era povoar o novo espaço, que foi demarcado em 1873 por Valentim José Ferreira, em 170 lotes de terra, porém, afirma-se que em 25 anos desde a demarcação até a chegada dos primeiros imigrantes, pouco se havia feito, devido as dificuldades de desbravamento da mata fechada.

A ocupação da colônia por imigrantes estrangeiros não prosperou, pois conforme relatava João Capistrano Bandeira “em sua maioria não são lavradores, e nem revelam amor ao trabalho e à propriedade territorial” (ARAÚJO, 1981, p.30). Os imigrantes, após 3 anos da instalação da colônia de Benevides, entre os 364 que entraram, mais de 247 já haviam abandonado as terras cedidas.

“Nada mais pesaroso que verificar que, passados três anos, todos os esforços feitos, tinham fracassado completamente, pois onde ‘foi a colônia de Benevides’, por certo, local já em completo abandono, se localizavam 800 imigrantes cearenses que receberam terras (…) nem se falava mais nos colonos estrangeiros que em 1875, receberam seus títulos de terra” (Araújo, 1981, p. 32).

Neste cenário, um novo personagem vai ganhar destaque no processo do povoamento da pequena colônia: o povo nordestino. “O início do povoamento da localidade data de 4 de julho de 1877 com elementos flagelados da seca que assolava o nordeste aquele ano” (Ferreira, 1984, p. 60). É elementar destacar, que muito embora as primeiras incursões para povoamento da região bragantina datem do longícuo período colonial com as primeiras demarcações de sesmarias, percorram diversas tentativas de povoamento com imigrantes estrangeiros, é apenas com a chegada de migrantes nordestinos que o povoamento de Santa Izabel do Pará se efetivará.

“Isto porque, embora houvesse uma política do governo brasileiro pela imigração estrangeira, direcionado às áreas de produção agrícola da região da “estrada”, foram os migrantes nordestinos que melhor se adaptaram ao trabalho nos núcleos coloniais que iam surgindo, a começar por Benevides e Santa Izabel.” (Paz, 2012, p. 14).

 “Mais de 17.000 cearenses flagelados povoaram a zona bragantina, de Santa Izabel até Igarapé açu. Desses, mais de 3.000 fixaram-se em Santa Izabel. A eles devemos a formação do 1º povoado izabelense! Esses bravos homens que sofreram os rigores das secas em sua terra natal, emigraram para procurar trabalho nas terras paraenses.” (Ferreira, 1984, p. 235)

Desde o início da década de 1870, as constantes tentativas de povoamento da região que compunha Benevides e Santa Izabel haviam sido frustradas. No entanto, graças ao advento da economia da borracha presente na Amazônia e a chegada dos nordestinos, o pequeno povoado pôde se desenvolver, ainda que a passos lentos, a marcha para o progresso havia se iniciado. No entanto, em 1881, o povoado de Santa Izabel que caminhava vagarosamente estava prestes a estagnar mais uma vez. Quando a capela já havia sido construída para receber a imagem da padroeira da cidade, como narra Nestor Herculano, “um alerta soou no ar provocando a retirada de mais de um terço da população”

“As pequenas propriedades foram abandonadas, para voltarem a terra de Iracema que acenava com convidativo meio para viverem menos sacrificados. Esse êxodo foi resultado das encampações da Estrada de Ferro de Sobral e em seguida a de Baturité, com finalidade de minorar o sofrimento dos flagelados da seca” (Ferreira, 1984, p. 67).

O reduzido número de habitantes levou ao quase fim do vilarejo “a capela não era mais frequentada (…) no tosco altar existia uma imagem de Santa Maria, deixada ali por algum devoto (Ferreira, 1984, p. 67). A educação também se arrastava naquele momento, em que se comprovava a importância da presença nordestina na região, “as duas escolas públicas criadas em 1880 no governo do presidente José Coelho de Gama, estiveram na eminencia de serem fechadas em virtude do pequeno número de alunos que as frequentavam” (Ferreira, 1984, p. 67). Diante desta crise que apontava séria dificuldade do povoamento da cidade e levava o pequeno núcleo, iniciado por nordestinos e estrangeiros remanescentes, a um iminente abandono é que os trilhos de uma bela época chegariam a Santa Izabel do Pará.

Parada do trem em Santa Isabel em 1935 (Foto Robert. S. Pratt – acervo
University of Milwaukee). Fonte: http://www.estacoesferroviarias.com.br/braganca/staisabel.htm

No pleno cenário da Belle Époque paraense é que a Estrada de Ferro finalmente chegou a Santa Izabel, desejada a pelo menos duas décadas como a principal solução no transporte e portanto do povoamento da região bragantina, ela chega ao pequeno povoado diante do desanimo dos habitantes, causado pelo baixo número populacional e o possível fim do povoado, “a história não registra qualquer demonstração de entusiasmo da parte dos moradores” (Ferreira, 1984, p. 67).

“Em 16 de março de 1885, os trilhos chegaram a Santa Izabel, nesse tempo um pequeno povoado pertencente a Benevides” (Ferreira, 1984, p. 217) e torna-se o maior símbolo de progresso trazido pela capital a Santa Izabel, um símbolo de modernidade que atravessava o pequeno vilarejo por trás da única rua existente na época, a atual Rua Matta Bacelar, anteriormente conhecida como rua do cemitério, a passagem do trilho mais tarde se tornaria a rua

Rota que percorria a estrada de ferro Belém-Bragança. Fonte: https://pt.w/ikipedia.org/wiki/Ficheiro:Mapa-rota-turistica-ferrovia-belem-braganca.png acesso em 08/12/2024

Ferreira (1984, p. 222) é bastante enfático ao afirmar que “certo está, que se não fosse a Estrada de ferro de Bragança seria impraticável o povoamento da região insalubre” atribuindo à obra produzida em meados da Belle époque paraense, a total responsabilidade pelo progresso e desenvolvimento da região. A Belle Époque amazônica não só foi responsável pelo embelezamento de Belém, como pelo desenvolvimento de vários pequenas vilas que haviam surgido na região da Zona Bragantina.  “A ideia de progresso nesse período foi propagada em Belém e seus arredores, foram construídos palácios, viadutos, importação de ornamentos e edificações metálicas, ampliação e arborização das vias de Belém, entre outros. Neste contexto, houve o crescimento de instituições de amparo.” (Rosa, 2022, p. 61) 

Entre estes arredores de Belém, encontramos na especificidade da pequena vila de Santa Izabel, “A Belle Époque foi marcante na estruturação política, econômica e social deste município com a instalação de três núcleos coloniais e a construção da ferrovia de Bragança, Orphanato “Antônio Lemos”, ponte Tibiriçá, Ponte do Varadouro dos povos Tupinambás, Retiro de Moema, 2 cemitérios, paradas e estações ferroviárias.” (Souza, 2012, p. 196).  Belle époque foi, portando, fundamental para a formação do município de Santa Izabel, tanto para o povoamento, efetivado pela Estrada de ferro, como posteriormente com a chegada de pessoas da elite paraense, no pequeno povoado.  

Várias dezenas de cidades, vilas e povoações plantadas numa região selvagem, esquecida pelos nossos primeiros colonizadores por mais de dois séculos, cujo índice demográfico era de 20 a 24 habitantes por quilometro quadrados, jamais deixaram dúvidas quanto a monumental obra realizada pela Estrada de Ferro de Bragança (FERREIRA, 1984, p. 221)

As grandes mudanças ocorreriam no pequeno vilarejo de Santa Izabel do Pará, a partir do advento da Belle époque amazônica, ocasionado pelo ciclo da borracha, o marco inicial do crescimento populacional e do desenvolvimento da cidade se deve à chegada da estrada de ferro de Bragança. Como descreve Araújo (1981, p. 37) “com chegada da Estrada de ferro, o povoado de Santa Izabel inicia sua marcha para o desenvolvimento.

Figura 1 – Trecho da antiga estrada de ferro.

Fonte: Ferreira (1984, p. 225)

Tal desenvolvimento se tornaria mais viável a Santa Izabel, uma vez que o acesso dos moradores de Belém se facilitou. Alguns fizeram casas de repouso, a saúde ganhou maior assistência, visto que médicos tiveram maior alcance, os empreendimentos cresceram, o comércio se desenvolveu e um político de renome, enxergaria em Santa Izabel um importante reduto para a construção de um complexo que seria composto por um retiro, um viaduto e um Orphelinato, anos mais tarde. Pode-se afirmar, portanto, que a chegada dos trilhos ao pequeno vilarejo foi o início de um período de grande progresso para Santa Izabel, enquanto ainda vila de Belém.

O progresso chega de vez com Antônio Lemos, quando “na Belle Époque, em 1897 foi eleito intendente (prefeito) de Belém e em 1900 foi reeleito com mandato até 1912 (foi intendente durante 15 anos) Marcou seu nome na história com o desenvolvimento e a modernização da capital do Pará.” (SOUZA, 2012, p. 199).

Na organização do “embelezamento” de Belém, por assim dizer, o governo do então intendente suscitará resquícios à Santa Izabel. A pequena vila, será fundamental na articulação da construção de pequenos prédios que detinham interesses específicos, no entanto, um objetivo em comum: ajudar na organização da reurbanização e no embelezamento da capital.

Neste momento o desenvolvimento econômico, saúde e também a educação ganham significativo crescimento com investimentos advindos por parte do governo de Lemos. Marcadamente, os investimentos do intendente em Santa Izabel ganham forma com o complexo Lemista: Retiro de Moema, Orphelinato Antônio Lemos e a Ponte Tibiriçá. É impossível falar de Belle époque em Santa Izabel e não associa-la a este complexo, que ainda hoje representa grande potencial histórico e patrimonial.

Referências bibliográficas.

ARAÚJO, Carlos. História de Santa Izabel do Pará. Castanhal: Gazeta do Interior, 1981.

FERREIRA, Nestor Herculano. História do Município de Santa Izabel do Pará. Belém: Editora Farângola, 1984.

SOUZA, M. Amazônia e modernidade. Estudos Avançados. v.16, n.45. 2002.

ROSA, Larisse de Fátima Farias da. O potencial patrimonial e museológico do conjunto arquitetônico Antônio Lemos em Santa Izabel do Pará. Orientador: Diogo Jorge de Melo. 2015. 64 f. Trabalho de Curso (Bacharelado em Museologia) – Faculdade de Artes Visuais, Instituto de Ciências da Arte, Universidade Federal do Pará, Belém, 2015.

ROSA, Larisse, E Melo, Diogo. “O HISTÓRICO DO CONJUNTO ARQUITETÔNICO ANTÔNIO LEMOS EM SANTA IZABEL DO PARÁ: UMA HERANÇA DA BELLE ÉPOQUE NA AMAZÔNIA” II Sebramus (2015) (2019): n. pág. Web. 24 Nov. 2024. PAZ, Raimundo Franciel. Nas correntezas e contra correntezas do rio Caraparu: memória e história em comunidades tradicionais na Amazônia Oriental (1912 – 1950). Dissertação (Mestrado). Belém: Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia – UFPA, Belém, 2012.

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