Ensinando Historia Local no patrimônio
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Heranças da Belle Époque em Santa Izabel do Pará.

O contexto histórico das tentativas de colonização e da posterior urbanização do município, conforme o historiador local Franciel Paz (2012, p. 57) “remete-nos ao contexto das últimas três últimas década do século XIX.  Naquele momento, ocorria seca prolongada nos sertões do nordeste brasileiro, surto de febre amarela, peste bubônica e varíola na região em torno de Belém, o “boom” da produção e exportação da borracha nativa da Amazônia para o mundo industrializado e o processo de colonização da região Bragantina”.

A busca pelo progresso e desenvolvimento desta região nos remete aos fins do período imperial, aponta-se que “nas incursões entre os dois centros urbanos, Belém e Bragança, havia uma área completamente despovoada, aguardava a colonização” (Araújo, 1981, p.27).

O interesse pelo povoamento da “zona bragantina” esteve ligada a necessidade da criação de uma via terrena entre os municípios de Belém e Bragança, que pudessem facilitar a viagem e o transporte entre as cidades, tendo em vista as dificuldades que a viagem fluvial apresentava, conforme Araújo (1981, p. 25): “Devido a correnteza das águas do litoral (…) preferia-se a rota do interior, indo por terra até Ourém e, daí, pelo rio Guamá até Belém, desta forma eram cobertas 25 léguas de distância entre Belém e Bragança em 6 ou 8 dias de viagem.”

“Os planos do império era promover a colonização estrangeira no Pará, mas tal projeto fracassou, pois só existem referências a colônia americana de Santarém como projeto realizado. Na época não existiam condições financeiras para garantir tal empreendimento” (Araújo, 1981, p. 19). Dentre as primeiras tentativas de povoamento da região bragantina, uma foi feita pela atração de estrangeiros entre franceses, italianos e espanhóis, que chegaram por volta de 1875, mas que não prosperou, pois conforme relatava João Capistrano Bandeira “em sua maioria não são lavradores, e nem revelam amor ao trabalho e à propriedade territorial” (ARAÚJO, 1981, p.30). 

A ocupação e os primórdios do povoamento da pequena colônia só conseguiu seus primeiros passos com a chegada de nordestinos refugiados da seca, conforme Ferreira (1984, p. 60) “o início do povoamento da localidade data de 4 de julho de 1877 com elementos flagelados da seca que assolava o nordeste aquele ano”, Paz (2012, p. 14) reitera: “Isto porque, embora houvesse uma política do governo brasileiro pela imigração estrangeira, direcionado às áreas de produção agrícola da região da “estrada”, foram os migrantes nordestinos que melhor se adaptaram ao trabalho nos núcleos coloniais que iam surgindo, a começar por Benevides e Santa Izabel.”

O político e pesquisador independente da cidade, Nestor Herculano Ferreira (1984, p. 235) dá grande ênfase a este fato “Mais de 17.000 cearenses flagelados povoaram a zona bragantina, de Santa Izabel até Igarapé açu. Desses, mais de 3.000 fixaram-se em Santa Izabel. A eles devemos a formação do 1º povoado izabelense!”

No entanto, em 1881, o povoado de Santa Izabel que caminhava vagarosamente para a sua formação, estava prestes a estagnar mais uma vez. Quando a capela já havia sido construída para receber a imagem da padroeira da cidade, como narra Nestor Herculano (1984) “um alerta soou no ar provocando a retirada de mais de um terço da população” e os nordestinos viram possibilidade de voltar a sua terra natal.

“As pequenas propriedades foram abandonadas, para voltarem a terra de Iracema (…) Esse êxodo foi resultado das encampações da Estrada de Ferro de Sobral e em seguida a de Baturité, com finalidade de minorar o sofrimento dos flagelados da seca” (Ferreira, 1984, p. 67).

Narra-se que a população reduziu-se a menos de 30 habitantes e o pequeno povoado quase sumiu, a educação também se arrastava naquele momento em que se comprovava a importância da presença nordestina na região, “as duas escolas públicas criadas em 1880 no governo do presidente José Coelho de Gama, estiveram na eminencia de serem fechadas em virtude do pequeno número de alunos que as frequentavam” (Ferreira, 1984, p. 67).

Diante desta crise que apontava séria dificuldade do povoamento da cidade e levava o pequeno núcleo, iniciado por nordestinos e estrangeiros remanescentes, a um iminente abandono é que os trilhos de uma bela época chegariam a Santa Izabel do Pará. “Graças, a repercussão do ciclo da borracha nas décadas de 1870-1880, as condições foram estabelecidas para a povoação e colonização da região bragantina com a criação da colônia de Benevides” (Araújo, 1981, p. 19).

 Em pleno cenário da Belle Époque é que a Estrada de Ferro finalmente chegou “Em 16 de março de 1885, os trilhos chegaram a Santa Izabel, nesse tempo um pequeno povoado pertencente a Benevides” (Ferreira, 1984, p. 217) desejada a pelo menos duas décadas como a principal solução no transporte e portanto do povoamento da região bragantina, ela chega ao pequeno povoado diante do desanimo dos habitantes, causado pelo baixo número populacional e o possível fim do povoado, “a história não registra qualquer demonstração de entusiasmo da parte dos moradores” (Ferreira, 1984, p. 67).

A pequena vila de Santa Izabel, encontra espaço para se desenvolver neste contexto, “a Belle Époque foi marcante na estruturação política, econômica e social deste município com a instalação de três núcleos coloniais e a construção da ferrovia de Bragança, Orphanato “Antônio Lemos”, ponte Tibiriçá, Ponte do Varadouro dos povos Tupinambás, Retiro de Moema, 2 cemitérios, paradas e estações ferroviárias.” (Souza, 2012, p. 196).

Adentrando aos ares da História local de nossa dissertação, iniciamos afirmando a importância da chegada da Estrada de ferro a cidade em 1885, somente proporcionada pela economia gomífera, em ascensão naquele período. A Belle époque foi, portando, fundamental para a formação do município de Santa Izabel, tanto para o povoamento, efetivado pela Estrada de ferro, como posteriormente com a chegada de pessoas da elite paraense, no pequeno povoado.  

Várias dezenas de cidades, vilas e povoações plantadas numa região selvagem, esquecida pelos nossos primeiros colonizadores por mais de dois séculos, cujo índice demográfico era de 20 a 24 habitantes por quilometro quadrados, jamais deixaram dúvidas quanto a monumental obra realizada pela Estrada de Ferro de Bragança (Ferreira, 1984, p. 221) Portanto, as origens da cidade e as grandes mudanças que ocorreriam no pequeno vilarejo de Santa Izabel estão intrínsecamente ligadas ao advento da Belle époque amazônica, ocasionado pelo ciclo da borracha. O marco inicial do crescimento populacional e do desenvolvimento da cidade se deve à chegada da estrada de ferro de Bragança, pois como reforça Araújo (1981, p. 37) “com chegada da Estrada de ferro, o povoado de Santa Izabel inicia sua marcha para o desenvolvimento.

Fonte: Ferreira (1984, p. 225)

Tal desenvolvimento se tornaria mais viável a Santa Izabel, uma vez que o acesso dos moradores do centro de Belém se facilitou. Alguns fizeram casas de repouso, a saúde ganhou maior assistência, visto que médicos tiveram maior alcance, os empreendimentos cresceram, o comércio se desenvolveu e um Santa Izabel se tornaria parte dos planos de embelezamento de Belém, projetado pelo Intendente Antônio Lemos.

Lemos encontraria no pequeno núcleo urbano, um importante reduto para a construção de um complexo que seria composto por um retiro, um viaduto e um Orphelinato, anos mais tarde. Pode-se afirmar, portanto, que a chegada dos trilhos ao pequeno vilarejo foi o início de um período de grande progresso para Santa Izabel, enquanto ainda vila de Belém.

Isto evidencia, a ideia de uma cidade que tem em dado momento histórico especifico como é o caso da Belle Époque para Santa Izabel, o auge de seu avanço econômico. Isto porque, era uma região que não conseguiu se desenvolver sem o advento da economia da borracha, apesar das inúmeras tentativas anteriores.

Além disso, as estruturas que este período vai proporcionar para a cidade, esboçam o sentimento de “Cidade do já teve” que sucumbirá na História posteriormente criada sobre o município e propagada por várias gerações, não se pode perder de vista o foco da formação ou reafirmação da identidade izabelense, ao demonstrar que as construções trazidas a Santa Izabel neste momento tinham interesses políticos ou propriamente particulares. Tendo a Estrada de ferro como símbolo para o início definitivo do povoamento da região, o progresso vai ser enfatizado no governo de Antônio Lemos, quando “na Belle Époque, em 1897 foi eleito intendente (prefeito) de Belém e em 1900 foi reeleito com mandato até 1912 (foi intendente durante 15 anos) Marcou seu nome na história com o desenvolvimento e a modernização da capital do Pará.” (Souza, 2012, p. 199). Na organização do “embelezamento” de Belém, por assim dizer, o governo do então intendente suscitará influencias à Santa Izabel. A pequena vila, será fundamental na articulação da construção de pequenos prédios que detinham interesses específicos, no entanto, um objetivo em comum: ajudar na organização da reurbanização e no embelezamento da capital.

Capela do Retiro de Moema

Fonte: https://casadamemoriaunama.blogspot.com/2014/02/exposicao-sitio-historico-de-moema.html acesso em 30/11/2024

Neste momento o desenvolvimento econômico, saúde e também a educação ganham significativo crescimento com investimentos advindos por parte do governo de Lemos. No entanto, entre sua mais marcantes construções estão no complexo Lemista: Retiro de Moema, Orphelinato Antônio Lemos e a Ponte Tibiriçá. É impossível falar de Belle Époque em Santa Izabel e não associa-la a este complexo, que ainda hoje representa grande potencial histórico e patrimonial, carregado de “nostalgias” que trazem a moradores um sentimento de “saudade” ou “viuvez” daquilo que de fato nunca aconteceu.

Ponte do Retiro de Moema.

Fonte: https://casadamemoriaunama.blogspot.com/2014/02/exposicao-sitio-historico-de-moema.html acesso em 30/11/2024

O retiro de Moema “era apenas um lote de terra geograficamente situado dentro dos 36 quilômetros quadrados disponibilizados à criação da colônia Benevides (…) localizado próximo a 4ª transversal, as margens da Estrada de ferro de Bragança.” (Siqueira, 2011). Este retiro era parada obrigatória dos viajantes que por ali passavam pela ferrovia, foi idealizado por Antônio Lemos como símbolo de seu amor por um de seus filhos, Manoel Tibiriçá, que foi acometido por hanseníase.

Figura 2 – Retiro de Moema

Disponível em https://www.flickr.com/photos/tilia_koudela/148304510 (acesso em 30/10/2024).

Sitio Histórico de Moema foi concebido as margens da estrada de Ferro Belém-Bragança, atual BR-316, intermediário aos Municípios de Benevides e Santa Izabel

Fonte: https://casadamemoriaunama.blogspot.com/2014/02/exposicao-sitio-historico-de-moema.html acesso em 30/11/2024

“Moema é o retrato da vida entrelaçada pelos laços familiares, forjado com muito amor e sensibilidade, buscando encontrar o conforto por suas angústias, seu inconformismo, sua dor, num lugar paradisíaco que pudesse amenizar o sofrimento de um de seus filhos, agredido pela Hanseníase” (Siqueira, 2011).

O antigo Viaduto Antônio Lemos, foi construído dois anos após a morte de Manoel Tibiriçá, narra-se que era um jovem muito querido da cidade, pois despertava compaixão quando passeava de carruagem pela vila com seus empregados. Em 1906, o viaduto foi inaugurado pelo intendente.

Apesar de no início ter sido oficialmente chamado de viaduto Antônio Lemos, o próprio povo, o rebatizou informalmente como “Ponte do Tibiriçá” em homenagem ao jovem falecido. Era um monumento muito querido pelo povo de Santa Izabel, pois despertava muitas memórias de momentos divertidos ou descontraídos, tendo sido por muitos anos, o principal ponto de encontro de casais izabelenses.

O Viaduto Antônio Lemos, na Vila Santa Izabel, no dia de sua inauguração.

Fonte: https://blogdodiegosousa.blogspot.com/2011/06/tibirica-ponte-que-caiu.html 2011. Acesso em 01/06/2024

Em 2011, a Ponte Tibiriçá (Viaduto Antonio Lemos) teve seus últimos escombros derrubados e retirados de seu local de origem. A comoção popular foi enorme, muitos apontavam como decepcionante a gestão do então prefeito Marió Cató, que naquele momento, teve coragem de eliminar um patrimônio gestado por Antônio Lemos no período da Belle Époque. Diego Sousa, em repudiou tal atitude em 29 de junho de 2011:

“Indignação, revolta, ódio, tristeza… é o que senti ao passar hoje de manhã pela rua João Casa Nova, mais conhecida como Tibiriça principalmente pelas gerações de amantes que namoraram nas suas ponte que hoje já não existe mais. É isso mesmo a prefeitura arrancou com toda truculência possível as duas pontes onde meus pais namoraram, eu namorei, mas meus filhos não terão essa oportunidade, quem não namorou no Tibiriçá não pode se considerar um caboco izabelense da gema.”

Escombros do Viaduto Antônio Lemos

Fonte: https://blogdodiegosousa.blogspot.com/2011/06/tibirica-ponte-que-caiu.html 2011. Acesso em 01/06/2024

Por fim, o Orphelinato Antônio Lemos é sem dúvida a maior construção da Belle Époque nas terras de Santa Izabel. Sua estrutura monumental com um fim de assistência social admirável, é um monumento que se traduz em inúmeros interesses políticos e simbolismos para a atual sociedade Izabelense e é atualmente patrimônio tombado.

Colégio Estadual Antônio Lemos, antigo Orphelinato Antônio Lemos.

Fonte: https://www.flickr.com/photos/celsolobo/23700384315 acesso em 06/11/2024

O prédio do Conjunto Arquitetônico Antônio Lemos foi idealizado por Lemos, para abrigar garotas órfãs do Orfanato Antônio Lemos com a pretensão de preparar essas meninas de acordo com as exigências da sociedade da época, ele tem uma beleza tão peculiar e destaca-se no centro da cidade que tende a nos hipnotizar, o que não é nosso interesse ao trabalhar com o monumento, traremos na próxima seção um breve histórico do prédio com a intenção de nos desprendermos da beleza do patrimônio e manter o foco nas relações sociais e políticas que permeiam o seu erguer.

Referências

ARAÚJO, Carlos. História de Santa Izabel do Pará. Castanhal: Gazeta do Interior, 1981.

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