Parte dos objetivos que fizeram deste projeto se tornar realidade e que culminaram na criação desta dimensão propositiva, foi a preocupação de fazer chegar aos professores e professoras dos anos iniciais do ensino fundamental um produto de ensino de História que torna-se mais prática as aulas sobre o município de Santa Izabel do Pará, visto que, são os temas primordiais nesta modalidade de ensino, conforme rege a BNCC.
Para tanto, a realização de entrevistas foi necessária para o cumprimento desta pesquisa, que precisava buscar no seio dos profissionais do magistério dos anos iniciais, seus relatos e experiências com o ensino de História neste período. As entrevistas foram elaboradas a partir de 5 perguntas que nortearam as entrevistas: Qual a frequência de aulas destinadas a componente curricular de História? Você trabalha a História local em suas aulas de História? Tem articulado temas voltados a história da cidade em algum projeto interdisciplinar? Que conhecimentos e metodologias costuma utilizar para desenvolver tais temas? Você poderia apontar desafios ou dificuldades de ensinar história local em sua sala de aula?
As entrevistas forma realizadas em duas escolas de educação infantil e ensino fundamental da cidade, observando a disponibilidade de professores e a autorização prévia dos gestores por meio de carta convite, as escolas que me responderam e aceitaram a minha entrada foram Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Irmã Marlene, localizada na Quadra 5, 1109, no bairro Jardim das Acácias; e Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Nestor Herculano, localizada na Rua Maria de Fátima, 1524 no bairro Novo Horizonte, os entrevistados foram realizadas com os seguintes docentes:
Tabela 3: Lista dos professores dos anos iniciais entrevistados.
| Entrevistado | Escola de atuação | Turma atual | Data da entrevista |
| Carlos Eduardo Santana Ferreira | EMEIF Irmã Marlene | 5º ano | 07/06/2024 |
| Maria de Nazaré Sena Cruz | EMEIF Irmã Marlene | 4º ano | 07/06/2024 |
| Édila Kerolina Sampaio do Rosário | EMEIF Irmã Marlene | 3º ano | 07/06/2024 |
| Dione do Socorro Baia Faro | EMEIF Nestor Herculano | 4º ano | 26/06/2024 |
| Maria Cristiane Sousa dos Santos | EMEIF Nestor Herculano | 5º ano | 26/06/2024 |
| Michelle do socorro da silva | EMEIF Nestor Herculano | 3º ano | 26/06/2024 |
Fonte: elaborado pelo autor.
A entrevista foi realizada com apoio do aplicativo de gravação de áudio “Gravador de voz” para o registro de dados. Anteriormente às entrevistas, todos os professores que aceitaram, assinaram um termo de seção da entrevista, o que nos permitiu publicar os nomes e falas. As gestoras de ambas as instituições participantes da pesquisa, foram muito solícitas e me receberam muito bem, as falas das professoras que cederam as entrevistas, foram de grande colaboração para a realização da pesquisa e decidi realiza-la com professores de distintas turmas, (3º, 4º e 5º anos) para identificas as diferenças entre os professores e as atuações nas respectivas turmas, questionando sobre as metodologias, possibilidades, carências ou necessidades de se ensinar História local na singularidade de cada série dos anos iniciais do ensino fundamental, respeitando as ordens que são seguidas pela SEMED de Santa Izabel do Pará e seu currículo.
Pois bem, para melhor compreensão, resolvi fazer uma comparação entre as respostas dos professores conforme os anos de cada etapa dos anos iniciais, para percebermos onde se tem maiores dificuldades para a sequência das aulas de História. Ao questionar “Qual a frequência de aulas destinadas a componente curricular de História?” que tinha por pretensão medir o tempo que é destinado ao ensino de História nos anos iniciais, ou não, tive distintas afirmações à medida que passei pelas singularidades de cada turma desta etapa da educação básica.
Nas peculiaridades do 3º ano do ensino fundamental, temos falas das professoras Édila Kerolina Sampaio do Rosário, de 30 anos, da EMEIF Irmã Marlene; e Michelle do socorro da Silva, de 34 anos, da EMEIF Nestor Herculano, em suas falas agregamos as maiores dificuldades do ensino de História local nos anos iniciais, as professoras tiveram respostas muito semelhantes, com relação ao primeiro questionamento, sobre a frequência das aulas de História, Édila Rosário afirmou:
“Bem pouco, porque o índice de alfabetização está muito baixa e a gente precisa suprir a necessidade da língua portuguesa, por isso a História tem sido deixada um pouquinho de lado.” (Édila Rosário, Informação verbal, 2024)
Enquanto Michele Silva pontua que ela consegue dar aula de História “Uma vez por semana, quando é possível” (Michele Silva, Informação verbal, 2024) deixando claro que a História tem ficado em segundo plano em suas aulas e corrobora com a ênfase que tem sido dada a alfabetização nas aulas de língua portuguesa, como forma de prioridade das aulas no decorrer no ano letivo, quando pergunto sobre os ensinamentos da História local ela afirma “Pouquíssimo, no caso da minha turma que é o terceiro ano não dá tempo, eu preciso forcar tudo na alfabetização dos meus alunos” (Michele Silva, Informação verbal, 2024). Estas dificuldades se estendem pelo próximo ano (4º ano) dos anos iniciais do fundamental, como afirma a professora Maria de Nazaré Sena Cruz, de 47 anos, da EMEF Irmã Marlene, que trabalha com o 4º ano desta fase: “Pra falar a verdade não, o que vou passar para avaliar eles? Preciso passar uma atividade que traga a História, mas que priorize a leitura e a alfabetização, consegui trabalhar descobrimento do Brasil e relacionado ao índio, agora vou trabalhar os saberes izabelenses, onde vou montar uma atividade com eles. Agora na segunda avaliação vamos trabalhar somente letramento, onde precisamos priorizar a leitura inclusive gravando agora. A leitura é um ponto de muita dificuldade, por isso a falta de aulas de história. O foco é o português e matemática. O foco é na leitura e alfabetização.” (Maria de Nazaré Cruz, Informação verbal, 2024)

Entrevista com a professora Maria de Nazaré Sena Cruz (4º ano) da EMEIF Irmã Marlene. 07/06/2024. Fonte: acervo pessoal do autor.
A professora talvez não tenha percebido que de certa forma, seja com a leitura ou o letramento, ela tem trabalhado o ensino de História de forma indireta, isto é, de maneira interdisciplinar, inserindo conteúdos em meio a língua portuguesa que colaborem com a aprendizagem do estudante, como afirma a professora Dione do Socorro Baia Faro, de 45 anos, que também trabalha com uma turma de 4º ano na EMEF Nestor Herculano “Todos os dias a gente trabalha história, dentro de outros objetos de conhecimento, é com muita frequência, pois a questão da localização é muito necessária” (Dione Faro, Informação verbal, 2024) exemplificando perfeitamente isto.

Entrevista com a professora Dione do Socorro Baia Faro (4º ano) na EMEF Nestor Herculano. 26/06/2024. Fonte: acervo pessoal do autor.
Em se tratar do 5º ano, o quadro não apresenta muitas mudanças, as aulas de História também não tem grande tempo para serem realizadas individualmente, sendo dependentes da interdisciplinaridade, sempre como uma espécie de componente curricular de apoio a outra que é “mais necessária”, como afirma a professora de 5º ano da escola EMEF Nestor Herculano “Trabalhamos o componente curricular mais importante que é a língua portuguesa, mas incluindo no meio dela a História” (Maria Santos, Informação verbal, 2024).
Dito isto, o professor Carlos Eduardo Santana Ferreira, de 28 anos, docente de uma turma de 5º ano da EMEF Irmã Marlene, deixa claro sobre o tempo reservado ao ensino de História: “Não é muito, umas 3 a 4 horas mensais. Estamos trabalhando recomposição de aprendizagem” (Carlos Ferreira, Informação verbal, 2024).
Logo, o que se percebe é que em grande parte das turmas dos anos iniciais do ensino fundamental, a História entra com a função de auxiliar nas aulas que tem por objetivo a leitura. A interdisciplinaridade é dominante no processo de ensino aprendizagem de História das crianças, conforme o professor Carlos Ferreira explica:
“Sim, é necessário pela recomposição de aprendizagem. Tema sobre os saberes izabelenses, história da escola que os alunos estudam é muito importante, os alunos precisam saber onde estudam. Pego a História de Santa Izabel e tento envolver com o português e matemática, já que as aulas tem sido de recomposição dando mais importância para o letramento e a matemática.” (Carlos Ferreira, Informação verbal, 2024).
A professora Maria Cristiane Sousa dos Santos, de 30 anos, professora de 5º ano da EMEF Nestor Herculano reforça esta afirmação:
“A história, ela está inclusa em língua portuguesa, costumamos dizer assim: a gente trabalha língua portuguesa em todas as outras componentes curriculares. Quando a gente trabalha com história, a gente trabalha o meio em que vivemos, exemplo, começo língua portuguesa e já entro no meio social que estão inseridos.” (Maria Santos, Informação verbal, 2024).
Portanto, os processos que envolvem o ensino de História nos anos iniciais tem encontrado na interdisciplinaridade um importante meio de cumprir os papéis de orientação e localização que a História tem como fundamental nesta fase da educação básica, mesmo porque, professores do 5º ano afirmam ser fundamental o ensino de História local para estes estudantes, Maria Cristiane Sousa dos Santos é bastante enfática ao afirmar que:
“Sempre falo pra eles, é importante saber o meio em que eles vivem, por vários motivos, sempre falo pra eles: se eu não souber onde eu vivo, como eu posso me encontrar se um dia eu me perder? Outra questão que torna a localidade importante é a questão dos alunos que se mudam constantemente.” (Maria Santos, Informação verbal, 2024).
Sobre esta importância dos temas voltados a história local, a professora Édila Kerolina Sampaio do Rosário (3º ano) da EMEIF Irmã Marlene, menciona “Sim, com eles eu trabalho mais a história do município mesmo. Tem coisas que eles não sabem, ficam surpresos com as curiosidades que trago para a aula sobre a cidade, é sempre muito bom trabalhar esses temas de História da cidade” (Édila Rosário, Informação verbal, 2024).
Quanto as abordagens e conhecimentos que os professores costumam mobilizar para ensinar História local, nos 3º anos a professora Édila Rosário, pontua que é “Muito difícil, é só pra suprir a pontuação da componente curricular” (Édila Rosário, Informação verbal, 2024), mas pondera que consegue fazer certas atividades que possam circundar a História, como:
“Eu trabalhei na avaliação, um projeto sobre os povos indígenas, mas na língua portuguesa, um projeto pra eles conhecerem os povos indígenas e saberem porque mudou o nome da data de “dia do índio” para “povos indígenas” (Édila Rosário, Informação verbal, 2024).

Entrevista com a professora Édila Kerolina Sampaio do Rosário (3º ano) da EMEIF Irmã Marlene. 07/06/2024. Fonte: acervo pessoal do autor.
Enquanto a professora Michele Silva, aponta grandes problemas para conseguir adequar o ensino de História em sua turma de 3º ano, conforme ela mesma nos informa:
“Eu tenho 31 alunos, 3 crianças com necessidades especiais, a maioria não é alfabetizada, por isso que História, geografia e ciências trabalho uma vez por semana, mas sempre com uma parceria com a língua portuguesa. Então não dá tempo.” (Michele Silva, Informação verbal, 2024).
O 3º ano é a turma que mais apresenta dificuldades em trabalhar temas relacionados a História local, isto se deve por vários fatores como este acima mencionado pela professora Michele Silva, no entanto cabe ainda ressaltar que o período de paralização das aulas em virtude da pandemia da COVID-19 foi um fator predominante para que os atrasos no letramento dos estudantes fosse motivo de grande ênfase nos anos iniciais do ensino fundamental, tornando o tempo encontrado para a componente curricular de História cada vez mais inviável, principalmente nos 3º e 4º anos.
Dentre estas maiores dificuldades, a professora Michele Silva reforça ainda que “O tempo que não sobra e a questão das poucas produções didáticas sobre história local, não temos” (Michele Silva, Informação verbal, 2024), deixando claro a possibilidade ou ainda a primordial necessidade de se produzir materiais didáticos que possibilitem a aproximação da classe dos professores dos anos iniciais que abordem estes temas da localidade. Enquanto a professora Édila frisa mais uma vez a principal dificuldade de se ensinar História:
“O maior desafio que a gente encontra é os alunos não serem fluentes na leitura, porque ao meu ver a história é uma disciplina que trabalha muito texto e eles precisam dominar a leitura para acompanhar, se o aluno não está lendo é muito difícil dele compreender o que eu esteja explicando.” (Édila Rosário, Informação verbal, 2024).
Apontando como fundamental, a atitude leitora para que haja entendimento histórico, o mesmo corrobora a professora Maria Cruz “Não tenho tido tempo, minha turma, por ser 4º ano, preciso priorizar a leitura e alfabetização, pra ensinar história, preciso primeiro fazer esses meninos aprender a ler e interpretar” (Maria de Nazaré Cruz, Informação verbal, 2024) enquanto a professora Dione Faro, do 4º ano aponta como suas principais metodologias para o ensino de História local:
“Trabalho muito com gêneros textuais, com os comprovantes de energia, comprovantes de água, o próprio conhecimento do aluno sobre o bairro, através de mapas para que ele possa interpretar o que ele está estudando, para que eu não possa trabalhar uma metodologia “lá das quantas” pra que ele possa terminar a aula se localizando, nisso a gente trabalha muito.” (Dione Faro, Informação verbal, 2024)
Esta professora trabalha em grande ênfase, a localização, o conhecimento dos endereços e do bairro, dando como fundamental situar o aluno, algo que o ensino de História pretende como objetivo nos anos iniciais, trabalhando em grande parceria com a Geografia, no entanto, aponta como grandes dificuldades para a realização de suas aulas de História no 4º ano a falta de materiais didáticos, “por exemplo um mapa, tão simples, a gente não tem um mapa do município, aí eu uso o meio do estudante, as vezes os métodos mais simples é onde alcançamos os melhores objetivos” (Dione Faro, Informação verbal, 2024).
O 5º ano é a fase desta etapa que parece ter menores dificuldades para os professores, isto se deve ao fato da maioria dos alunos chegarem com o processo de letramento e leitura avançado. Porém, nesta série o ensino de História também vem a ser trabalhado pela interdisciplinaridade com a língua portuguesa, mas no lugar do letramento e alfabetização, ganha ênfase os exercícios de leitura e a produção textual, e é a partir destas atividades que o conhecimento histórico encontra espaço para ser produzido.
O professor de 5º ano entrevistado, Carlos Eduardo Santana Ferreira, diz não sentir dificuldades “de apresentar esses temas pra eles, tenho observado que eles tem aceitado temas locais, e é uma disciplina que gosto muito de trabalhar com os alunos” (Carlos Ferreira, Informação verbal, 2024). Quando questionei sobre metodologias, o professor em sua própria sala de aula, local onde realizei as entrevistas, apontou para painéis com imagens dos monumentos históricos de Santa Izabel do Pará, e afirmou “gosto muito de trabalhar com imagens”.
Desta mesma fase de ensino, a professora Maria Cristiane Sousa dos Santos, da EMEF Nestor Herculano, descreve suas metodologias para o ensino de História local:
“Livros, mapas, o meio da localização. Papeis de energia, com bastante frequência, dados pessoas, número da casa, as origens da cidade também são bem trabalhadas. Eles são muito curiosos, quando a gente traz as curiosidades da história da cidade eles ficam muito animados” (Maria Santos, Informação verbal, 2024).
Por outro lado, aponta uma preocupação com suas aulas de História: “Sinto dificuldades de aprendizagem em parte da turma, afirmo que 60% da turma não compreende bem a História quando ensinada” (Maria Santos, Informação verbal, 2024). Manifestando sua angustia em localizar os estudantes no seu contexto histórico, social e geográfico.
Sugere-se entre os professores efetivos, que é ordem estabelecida pela SEMED de Santa Izabel do Pará, como uma emergência, a recomposição de aprendizagem, tendo como prioridades o letramento e leitura das crianças, por esta necessidade desigual em relação as turmas, os objetivos traçados entre elas tornam-se distintos entre si, notoriamente impondo uma preocupação maior na alfabetização nos 3º e 4º anos, deixando o 5º ano com maior liberdade de aprendizagem para outros componentes curriculares, mas com objetivo maior de produção textual.
Outro grande entrave para o ensino de História local nesta etapa da educação básica é a falta de materiais didáticos básicos que auxiliem os professores durante o processo. A interdisciplinaridade marca a grande aliada para que o ensino de História local não deixe de ser trabalhado.
Cabe ainda nos perguntarmos, como serão os resultados destas turmas que encontram-se em grande emergência da alfabetização e do letramento básicos e deixam de ter seus estudos na componente curricular de História com mais ênfase? Afinal, se a geração que chega ao 9º ano no ano de 2024 já era uma geração que presenciou a parada das aulas em virtude da pandemia, já nos apresenta forte carência no conhecimento de História local, o questionário elaborado neste mesmo capítulo, na seção anterior, como pode ser prejudicial a formação da identidade destes estudantes que ainda passaram pelas próximas etapas.
É possível, portanto, perceber que as primeiras turmas dos anos iniciais do ensino fundamental tem encontrado possibilidades de ensino de História local a partir da interdisciplinaridade com a língua portuguesa, tendo ainda como objetivos principais os mesmos estabelecidos pela BNCC que é a aproximação com a comunidade, o bairro e a cidade. Por outro lado, a última série deste período da educação básica encontra maiores possibilidades de se ensinar a História local a partir de metodologias de leitura e produção de textos. É consenso geral entre todas as séries desta fase, que a falta de recursos, ferramentas, produtos didáticos ou produções literárias a respeito dos temas locais, tornam inviáveis o ensino de História, deixando suficiente clara a necessidade da criação de recursos que possibilitem o ensino. Se faz cada vez mais necessária a criação de novos métodos e mecanismos que provoquem e instiguem o ensino de História local e que tenha por consequência a formação da identidade dos estudantes. Foi com esta preocupação que optei por criar este site.





