Esta possibilidade de se ensinar História, entrecruza imagens a partir de analogias que buscam semelhanças e diferenças ou mudanças e permanências, no que concerne a relações sociais, artes, arquiteturas, entre outras vertentes que possam instigar a imaginação e o senso crítico de alunos de forma dinâmica, didática e ao mesmo tempo sucinta.
Para tanto, no ano de 2017, durante a realização da Especialização em Ensino de História da UFPA, mais especificamente na disciplina “Novas abordagens para o Ensino de História, sob a orientação do Prof. Drº. Adilson Junior Ishihara Brito, eu (Adriel Eleris Ramos) e minha equipe, composta pelos professores, Alberto Daniel Pereira de Barros, Douglas Cardoso Rodrigues e Juraci Andrei de Jesus Souza idealizamos o “Almanaque análogo do Ensino de História” como objeto de ensino de História. Na época, apenas sonhava em entrar no programa de Mestrado profissional em Ensino de História da UFPA, e com a realização desta dimensão propositiva, que me foi proporcionado a realizar hoje (2024), tendo em vista esta “categoria” que compõe o site que se retira do ensino de História fundamentado na educação patrimonial e se apoia em “outras possibilidades de ensino” achei viável compartilhar com a comunidade de professores este sucinto projeto, que foi desenvolvido na especialização, deixo o slide que propões as abordagens de analogias para o ensino de História a partir da imagem.
Capa do Almanaque análogo de imagens do Ensino de História, 2017
A utilização da imagem no ensino de História não invalida o uso de textos e vice-versa, a coexistência desses dois tipos de linguagem só tem a acrescentar na metodologia de ensino do professor. Não estamos falando nessa utilização apenas para aulas sobre civilizações de tempos remotos, as fotografias sobre o século XX e XXI também podem nos trazer novas perspectivas de análise sobre os fenômenos sociais ocorridos. Apesar de toda a tecnologia a nossa disposição, a imagem ainda pode ser uma grande aliada na sala de aula, uma fotografia pode ser interpretada como o “congelamento” de um momento. A partir desse momento podemos analisar o todo, as causas e os desdobramentos de cada evento.
Se pensarmos melhor, podemos observar que nossos alunos, tem muita dificuldade na leitura e interpretação de textos, em vários graus, e é nesse ponto que a imagem nos garante uma interação maior do aluno com o conteúdo passado. Ao observar uma imagem o aluno tem uma noção quase instantânea do que está sendo abordado em sala, não necessitando de uma interpretação mais elaborada por parte do professor, claro, é preciso que o professor elabore uma aula voltada para essa utilização da imagem, para que tudo ocorra de acordo com o objetivo planejado.
Sendo assim, o trabalho do professor de História de apresentar o passado e relacioná-lo ao presente para o aluno pode ser mais bem-sucedido se, no planejamento das aulas, estiver incluso a utilização de imagens. Independente do período estudado, as imagens podem se comunicar de forma mais abrangente com alunos de várias faixas etárias e classes sociais. E assim a relação passado/presente se torna mais acessível para o aluno.

Pintura rupestre de aproximadamente 11.200 anos localizada no Parque Estadual Monte Alegre (Pema), oeste do Pará. Autor desconhecido 2015.

Arte Urbana, pintura feita no elevado do entroncamento na cidade de Belém. Autor K-xorro Valdog, 2014
O grande uso da escrita em nosso cotidiano não invalida a importância da imagem, vemos que, com o desenvolvimento crescente de ferramentas visuais, de vídeos, fotos entre outros, a comunicação preferida pelos jovens é visual, vídeos curtos e fartos em imagens, são consumidos com muito maior frequência do que livros físicos, ou até mesmo em formato PDF. O que está em pauta é a acessibilidade da informação através de uma linguagem universal, a imagem.
Dessa forma, se pensarmos em novas formas de abordar os conteúdos de História, tanto para o ensino fundamental quanto o médio, não podemos desprezar o uso das imagens, como ferramentas de trabalho e fontes históricas. São os registros mais antigos e abundantes do que a escrita, nos revelam várias dimensões da experiência social, também nos mostram os múltiplos grupos sociais e seus respectivos modos de vida. O ensino de História deve estar aberto as várias linguagens, dinâmicas e metodologias de ensino que visam uma melhor aprendizagem ao aluno, sobre períodos remotos (e outros nem tanto) que por vezes se tornam complexos demais para o entendimento, sem o auxílio de outros suportes que não seja o texto do livro didático ou de apostilas. Nesse contexto a imagem se torna uma aliada importante dos professores que desejam que seu papel na sociedade seja realmente relevante.
Povos Indígenas do Brasil, autor desconhecido

Manifestação indígena em Brasília, 2017, autor REUTERSGregg Newton

O Ensino de História requer múltiplos auxílios para conseguir alcançar o seu objetivo, a percepção por parte do aluno sobre o passado. As dificuldades encontradas pelo professor em sala de aula levam a repensar que tipo de linguagem se adequa melhor ao entendimento do aluno. A grande questão de se ensinar sobre períodos tão distantes da realidade do aluno é fazê-lo se interessar e compreender o conteúdo ministrado. A relação passado/presente é de fundamental importância para o trabalho do professor de História, é a razão de ser da profissão. Hobsbawm apresenta a importância do passado, quando diz que:
O passado é, portanto, uma dimensão permanente da consciência humana, um componente inevitável das instituições, valores e outros padrões da sociedade humana. O problema para os historiadores é analisar a natureza desse “sentido do passado” na sociedade e localizar suas mudanças e transformações. (Hobsbawm, 1998, p.22)
O “problema para os historiadores” apontado por Hobsbawm, também se aplica aos professores de História, que tendo a incumbência de exemplificar o passado e relacioná-lo com o presente, à alunos do 6º ano ao ensino fundamental, encontra grandes problemas de comunicação em sala de aula. Esta comunicação a qual nos referimos, está ligada a linguagem do material utilizada em sala de aula, que tipo de material usamos para atingir nosso objetivo, dependendo do assunto abordado.
Pelourinho, escravo sendo açoitado, autor Debret, 1835

Homem é linchado por populares após tentativa de assalto no Maranhão, autor Carlos Barroso 2015

Com o advento da tecnologia e o fácil acesso aos alunos a todo tipo de informação, podemos observar que cada vez menos tempo as pessoas se detém a leitura, ao entendimento da informação. Tudo acontece muito rápido, o que por um lado é bom, mas por outro cria-se um público leitor deficiente de compreensão do que lê. O professor em sala de aula se vê conduzido a desenvolver novas abordagens de ensino, diferentes técnicas e materiais, para cada turma, aluno e faixa etária, mesmo por que se isto não ocorre, uma outra situação pode vir a se manifestar de maneira negativa, o desinteresse do aluno e a perda de autoridade do professor, para Martín Barbero:
Diante do professor que sabe recitar muito bem sua lição, hoje, senta-se um alunado que, por osmose com o meio-ambiente comunicativo, está embebido de outras linguagens, saberes e escrituras que circulam pela sociedade. (…) o que não impede os jovens de ter, com frequência, um conhecimento mais atualizado (…) que seu próprio professor. (Barbero, 2000 p.55).
Trabalhar com o passado, relacioná-lo com o presente e ainda pensar em formas de abordagens diferentes para cada turma de alunos, não é uma tarefa simples de se fazer. O passado não pode ser reproduzido e apresentado para os alunos, o trabalho do professor de História é ensinar aos alunos eventos que aconteceram em épocas, realidades e sociedades muito diferentes da nossa, de uma maneira didática. Sobre essa especificidade da História, Ginzburg nos lembra que:
Enquanto um laboratório é um lugar onde se desenvolvem experiências cientificas, o historiador é, por definição, um pesquisador a quem os experimentos, no sentido próprio do termo, são vedados. Reproduzir uma revolução, um desbravamento, um movimento religioso é impossível, não só na prática, mas em princípio, para uma disciplina que estuda fenômenos temporalmente irreversíveis como tais. (Ginzburg, 2007.p. 312)
Dessa forma, percebemos o quanto é necessário para o professor a utilização de um variado conjunto de métodos e materiais para uma melhor comunicação com os alunos. Utilizar apenas textos em sala de aula torna as atividades pedagógicas enfadonhas, é preciso ilustrar o assunto discutido. Nesse sentido, a mudança de linguagens, da escrita para as imagens, é muito interessante. Se torna uma comunicação direta com o aluno, ao ver uma pintura rupestre, um quadro retratando um movimento popular ou uma foto de um protesto. São formas de expressão diferentes, a imagem e a escrita são duas formas diferentes de expressar um determinado fato histórico, são igualmente importantes.

Senado romano, autor desconhecido

Senado Federal em Brasília. Fonte: Folha de S. Paulo 2017.
A imagem tem uma abrangência maior, pelo simples fato de se basear em um dos sentidos humanos, a visão. A leitura sempre foi um domínio social restrito. Ainda nos nossos dias a leitura e a escrita não se incluem do mesmo modo todos os grupos sociais. Dessa forma Paulo Knauss afirma que:
Assim como na ausência de depoimentos escritos, a expressão de camadas das classes trabalhadoras dos tempos atuais pode ser reconhecida por fotografias cotidianas, a vida das elites pode ganhar outros enfoques a partir de álbuns de fotos de família que podem se contrastados com diários íntimos, por exemplo. Portanto, a imagem pode ser caracterizada como expressão da diversidade social, exibindo a pluralidade humana. (Knauss, 2006.p.99)
A linguagem imagética transmite uma mensagem assim como a escrita. “Embora textos também ofereçam indícios valiosos, imagens constituem-se melhor guia para o poder de representações visuais nas vidas, religiosa e política de culturas passadas. ” (BURKE, 2004, p.16.). Elas têm o poder de facilitar a apreensão de conhecimento por várias faixas etárias, basta que o professor saiba como usar as imagens em sala de aula. Para Burke, o uso das imagens por historiadores:
(…) não pode e não deve ser limitado à “evidência” no sentido escrito do termo (…). Pinturas, estátuas, publicações e assim por diante permitem a nós, posteridade, compartilhar as experiências não verbais ou o conhecimento de culturas passadas. Traze-nos o que podemos ter conhecido, mas não havíamos levado tão a sério antes. Em resumo, imagens nos permitem “imaginar” o passado de forma vivida. (…). (Burke, 2004, p. 16)
Deve-se as imagens, um destaque especial dentre as mais importantes fontes históricas de estudos da ciência do tempo, nunca esquecida e se possível enfatizada, sejam elas pinturas, fotografias, estátuas ou charges. Torna-se indispensável para os professores de História, mesmo que muitos ainda as deixem em segundo plano, atentar para esta real contribuição que este tipo de evidência traz tanto para a pesquisa quanto para o meio escolar.
Porém é necessário que haja um intenso cuidado com a utilização das imagens no ensino de História, deve-se estabelecer que as imagens não devem ser utilizadas unicamente como mera ilustração nas aulas, desta forma ela pode levar ao risco de que o interesse dos alunos permaneça ou aflore. Ao mesmo tempo, recomenda-se o cuidado com os diversos livros que tratam as imagens como meras ilustrações e não como fontes históricas, “o uso da imagem visual em História deve ir além de uma simples ilustração das aulas ou para meras discussões. O uso da imagem deve ser significativo, deve ter intencionalidade, é necessário ter qualidade”. (LITZ, 2009, p.2). Logo, o professor ao decidir-se pelo recurso que utilizará em suas aulas, deve também repensar a maneira que irá aplicá-lo. Sobre isto, Valesca Giordano Litz ainda ressalta que:
No processo pedagógico com o uso de imagens deve-se avaliar a importância da influência ideológica que as aplicam, em que o próprio processo de cognição e codificação da História seja o viés pelo qual os alunos, enquanto sujeitos do conhecimento, entendam que também são atores sociais e tomem consciência de seus atos. (LITZ, 2009, p.3).
Entender que a imagem no processo educacional da História não é apenas uma ilustração, mas também peça de excelência na ligação entre o passado e o presente é fundamental ao professor, podendo e devendo este, explorar ao máximo esta relação, e quanto à esta, reforça Litz:
A relevância de se estudar história deve residir na repercussão dos acontecimentos na própria história, ou seja, quanto esses fatos modificaram as relações sociais posteriores ou contemporâneas a eles, sempre fazendo uma relação passado-presente. (LITZ, 2009, p.5).
Como já foi estabelecido antes, pela afirmação de Hobsbawn, a relação passado/presente deve ser muito bem explorada no pleito das metodologias do ensino de História, por tanto o professor precisa atentar para que isto seja observado e explorado também nas aulas em que o recurso são as imagens, consequentemente, se não, o professor de História estará fugindo do principal objetivo de sua profissão. Conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais:
O que se torna significativo e relevante consolida seu aprendizado. O que ele aprende fundamenta a construção e a reconstrução de seus valores e práticas cotidianas e as suas experiências sociais e culturais. O que o sensibiliza molda a sua identidade nas relações mantidas com a família, os amigos, os grupos mais próximos e mais distantes e com a sua geração. O que provoca conflitos e dúvidas estimula-o a distinguir, explicar e dar sentido para o presente, o passado e o futuro, percebendo a vida como suscetível de transformação. (PCN, 1998, p.38)
Conclui-se, portanto que, para que o aluno obtenha êxito em sua formação e o professor em seu processo de ensino aprendizagem, enquanto educador é necessário que haja uma maior interação e utilização de novos métodos de diálogos práticos que falem além do discurso rotineiro do professor. A linguagem imagética torna-se assim, aliada apropriada do professor de História neste processo, sendo este responsável por enaltecer e criar as condições necessárias para a construção dos conhecimentos históricos advindos dos conteúdos curriculares para a formação do cidadão voltado a sociedade e família e respeito as diferenças, sempre pautados no diálogo do presente com o passado, ajudando a compor um acervo dos acontecimentos passados resultando na compreensão de seu meio de convivência contemporâneo. O ensino de História com auxílio de imagens tende a tornar a aula muito mais interessante, porém, este exercício de trazer ao aluno possibilidades de analogias do presente e do passado, tornam o ensino ainda mais eficaz, pode-se ainda experienciar esta forma de abordagem como novas imagens que possam ser do meio local do estudante, entrecruzando conhecimento histórico de temporalidades remotas com a História local a partir de imagens que possam ser comparadas. Deixo aqui, meus agradecimentos aos meus colegas de especialização em Ensino de História, parte deste texto foi escrito em conjunto com eles e pensamos este projeto para ajudar aos professores que tem escolas com poucos recursos.





