Ao entrar na cidade de Santa Izabel do Pará, pela Avenida Antônio Lemos (entrada do ginásio municipal) em direção ao centro da cidade, observando atentamente a sua esquerda qualquer pessoa ficará hipnotizada e encantada pela beleza de um prédio erguido no período da Belle Époque amazônica, em primórdios do século XX com arquitetura magistral aos moldes da arte do ecletismo.
Talvez se este monumento tivesse se erguido nos centros de Belém, o cotidiano dos cidadãos da capital fizesse com que ele passasse por despercebido, como muitas vezes já me ocorreu ao percorrer a capital com certa desatenção, pelo simples fato da grande Belém possuir diversos casarões, palacetes, praças e ainda um teatro como heranças da Belle Époque amazônica. No entanto, por ser um monumento único em um lugar que poucas construções do período, o atual colégio Antônio Lemos recordas as ostentações e extravagancias do que outrora foi o Orphelinato Antônio Lemos, expondo suas características peculiares, que definem a exclusividade de um monumento em meio ao que hoje é a cidade de Santa Izabel do Pará.
Figura: O Colégio Estadual Antônio Lemos, antigo Orphelinato Antônio Lemos.

Fonte: https://www.flickr.com/photos/celsolobo/23700384315 acesso em 14/10/2024
O simbolismo que envolve o antigo Orphelinato Antônio Lemos para a memória de Santa Izabel do Pará é gigantesco, isto porque ele tem uma ligação direta com as origens de uma cidade que encontrou, após inúmeras tentativas de povoamento, a possibilidade de se erguer com o advento do ciclo da borracha. As memórias que circundam o monumento são até mais antigas que a própria Santa Izabel enquanto cidade, visto que, foi erguido bem antes do pequeno núcleo urbano conquistar sua emancipação de Belém, logo, tudo que hoje é Santa Izabel do Pará, anteriormente era parte da cidade das mangueiras.
A emblemática concepção arquitetônica do edifício, tende a nos pregar peças que simbolizam a visão comumente aplicada a um contexto histórico de uma suposta bela época, que predomina nos discursos que circundam o monumento/ documento em questão. Essas peças a que me refiro, são o encantamento ocasionado pela beleza e ostentação de um belíssimo prédio construído em um período que encontrou um ideal de beleza civilizacional na mescla de algumas concepções artísticas que compunham as construções exuberantes das quais foram gestadas por líderes políticos que viam nestes conjuntos a possibilidade de perpetuação de suas memórias e interesses políticos, que muitas vezes saíam dos meios civilizados e desrespeitavam o simples direito de ir e vir.
Construções deste período supostamente tiveram o ideal da caridade e da boa vontade da “gente de bem” que unicamente tinha o interesse de “cuidar das camadas sociais desamparadas e desvalidas”. No entanto, o professor- historiador precisa partir de outras possibilidades de pensamento e abrir as mentalidades que dispõe em sala de aula para analisar os antigos conjuntos arquitetônicos que hoje são patrimônios materiais, pois conforme Átila Tolentino (2016, p. 44):
É necessário compreender o patrimônio de uma forma crítica e não apenas contemplativa. Cabe, portanto, ao educador patrimonial, criar possibilidades para uma construção coletiva do que é patrimônio cultural, a partir do diálogo e da negociação, sabendo que, nesse processo, necessariamente pode haver consensos, dissensos, dilemas e conflitos.
O meu principal objetivo de organizar um projeto que buscou na educação patrimonial uma forma de estudar a história local, foi justamente fugir das concepções saudosistas que põe em um pedestal (erroneamente) políticos do passado como se fossem grandes heróis da benevolência, compostos por “amor ao próximo” de tal forma, que enraizaram seus discursos produzidos e reproduzidos incansavelmente nos últimos anos entre as massas de diferentes gerações.
O problema, portanto, não é a falta de projetos que trabalhem os patrimônios izabelenses, temos alguns projetos bem estruturados, muito bem elaborados, alguns que propõem visitações a locais históricos, outros que adentram as vias digitais para divulgar estudos voltados a História local dignos sim, de muitos elogios e é, portanto, muito necessário destacar que o objetivo não é criticar estes projetos, que em vários casos são apoiados por instituições de respeito que incentivam estas possibilidades de rememorar o passado a partir dos antigo prédios, mas sim o de realizar uma aula distante do saudosismo político, por acreditar que este é meu papel enquanto professor-historiador, pois conforme Tolentino (2016, p. 44)
a educação patrimonial, muitas vezes, fica a reboque do ensino de História. Aliada às visitas aos centros históricos urbanos, ela acaba se resumindo, em diversos projetos, à transmissão da historiografia oficial das cidades e relacionada aos bens culturais, sem considerar os usos sociais do tecido urbano na atualidade e os significados atribuídos pelos sujeitos sociais a esses determinados bens culturais.
As inquietações de um profissional da História, propõe uma observação do patrimônio para além das paredes e ornamentações que a este pertencem, é necessário fazer o aluno pensar as relações sociais e os interesses políticos que existiam no período de sua construção, desta forma, o que aponto como problema nos atuais projetos de valorização aos patrimônios na cidade, são as abordagens passivas diante da propagação dos discursos carregados de saudosismos que vangloriam as ações políticas mas não expõe os interesses na construção de prédios, como é o caso do Orphelinato, visto que “não é possível, portanto, pensar em patrimônio ou memória coletiva sem pensar em alguma relação de poder. Nessa relação de poder, necessariamente entra a questão do capital” (Tolentino, 2016, p. 43).
Na concepção do monumento escolhido para nossa aula, o antigo Orphelinato Antônio Lemos, organizei uma visitação com a turma do 9º ano A como forma de aproximação e confronto com o monumento/documento, ciente das dificuldades que encontraria em chamar atenção dos estudantes para as questões sociais, diante de um monumento que tanto expressa beleza.
Desta forma, no dia 03 de outubro de 2024, levei os estudantes da turma para realizarmos a visitação e o confronto com o monumento escolhido. A agenda de visitação foi superada pela presença da Diretora do CEAL, Maria Claudete Sousa de Brito, que conveniente também é nossa coordenadora na EMEF Antônio Lemos, retirando empecilhos para nossa entrada no prédio, logicamente, tendo eu apresentado a ela o projeto pronto e aprovado após a qualificação e estando ciente do valor educacional. A visitação tem início no portão principal do complexo arquitetônico Antônio Lemos, existia uma motivação para tal, neste momento tentei estabelecer uma ligação entre as origens da cidade, a Belle Époque e o Orphelinato Antônio Lemos, neste momento, pedi para que os alunos observassem a rua que passava por trás deles, isto é, a rua em que a atual escola está situada e lhes perguntei: “Sabem o que essa rua pode representar de especial para a história da cidade?” em sua maioria, os alunos não tiveram possibilidade de responder. Tomei a palavra novamente, “esta rua é uma das primeiras de Santa Izabel, quando ela ainda era uma pequena vila e encontrava dificuldades para ser povoada, uma necessidade de ligação entre Belém e Bragança era sentida mas não se tinha possibilidades financeiras.”
Figura: Início do circuito da visitação no portão central da escola.

Fonte: acervo pessoal do autor, 2024.
Os questionei mais uma vez: “Sabem quando foi possível a chegada da Estrada de ferro para Santa Izabel?”, mais uma vez, recebi silencio, eu lhes disse: “Somente com a economia da Borracha, no período da Belle Époque amazônica, e foi somente ai que a cidade conseguiu se desenvolver de fato”. Um aluno me questionou: “O CEAL é mais antigo que a cidade?” e eu lhes respondi: “Sim, mais antigo se comparar Santa Izabel como município, enquanto vila não, o Orphelinato começa a ser construído em 1911 e é terminado em 1930, Santa Izabel se torna cidade somente em 1934”, achei conveniente para o objetivo de ensinar História local no patrimônio, associá-lo inicialmente a História da cidade, para somente depois adentrarmos ao prédio.
Coube ainda problematizar com os alunos o seguinte: “imaginem uma área como a vila de Santa Izabel, neste mesmo local, a mais de cem anos atrás, uma colônia com muitas matas fechadas e algumas pequenas casas, que ainda vivia o desafio de ser povoada, receber uma construção deste padrão, quais as intenções de trazer este prédio colossal para o meio desta vila?” o motivo para este questionamento, antes de mais nada era fazer os alunos pensarem as relações sociais da época, antes de se encantarem com o prédio, o que é comum em visitações a monumentos.
A segunda parte de nossa visitação, foi a entrada pela escadaria central e a observação da fachada do prédio, neste momento, eu mesmo, enquanto guia do percurso me prendi aos detalhes presentes no conjunto arquitetônico, como a escada de mármore e seu parapeito com balaustradas clássicas, a cor amarela recentemente retocada e os detalhes brancos, chamam atenção para as decorações das obras arquitetônicas da época. Chamei atenção para os pequenos ornamentos que compõe os três arcos de entrada do prédio, apontando para a riqueza de detalhes e caprichos que as construções passadas objetivavam.
Figura: Escadaria de entrada da Escola Antônio Lemos.

Fonte: acervo pessoal do autor.
Ao olharmos ainda nas escadas, tanto para a esquerda como para a direita, nos deparamos com as laterais compostas pelos dois pavimentos, nestes, fica ainda mais evidente os cuidados e preocupações que se tinha com a estética do período, os dois pavimentos são cuidadosamente ornamentados.
Rosa (2015, p. 36) assim os descreve “o primeiro pavimento é avarandado contendo gradis com ornatos em ferro com detalhes das iniciais do nome de Antônio Lemos (AL); os capitéis seguem o modelo da ordem Jônica; os arcos plenos são ornados com modelos de folhas e flores; existem oito portas de cada lado, essas contêm bandeiras fixas, acima dessas há janelas em vidro que fazem alusão a bandeiras, as portas são compostas por folhas com postigos almofadados e veneziana.”
Figura: fachada frontal de dois pavimentos.

Fonte: acervo pessoal do autor.
Em seguida, chamei atenção para os materiais que resistem a mais de cem anos de sua construção, como o ferro intacto que formam os arcos aparados pelos capitéis jônicos e uma aluna me questionou de onde haviam vindo as ferragens, e expliquei que os estilos da Belle Époque amazônica, eram como uma mistura de estilos que abrangiam também as grandes construções de ferro na Inglaterra, de onde provinha o ferro, assim à respondi: “A ferragem provinha da Inglaterra, inclusive, os problemas de transporte para trazer esse material para a Amazônia foi um dos principais motivos para o atraso na construção do orfanato”. Ao subir pelas escadarias, nos deparamos com nosso próximo ponto de visita à composição do prédio, nos corredores laterais, que fazem parte da fachada e dão acesso a algumas salas atualmente, pedi que fizessem uma breve analogia com as construções atuais, lançando um breve questionamento: “em questões de estética e arquitetura, vocês acham que evoluímos ou regredimos?” a maioria supôs que regredimos, ao perguntar porque, um aluno deixou uma interessante resposta: “Se a gente parar pra analisar essas construções antigas, elas eram mais trabalhadas, tinham muitos detalhes, as de hoje são só um monte de ‘tijolo e reboco’, porque, como é que fizeram uma escola com todo esse cuidado?”
Figura: Corredor frontal da escola, cercado por colunas.

Fonte: acervo pessoal do autor.
Nesta parada pelos corredores, falei um pouco mais sobre o estilo arquitetônico que compunha o prédio, porém, havia a necessidade de fugir da estética e entrar nas questões políticas e sociais, e segurando um gancho na resposta anterior do aluno, achei conveniente mais uma vez, problematizar algumas questões: “Se atentem que essas ferragens vem do berço da Revolução industrial, onde se inicia a relação burguesia e proletariado, não seria importante perceber que além das estruturas e materiais para a construção, a Amazônia também trouxe de fora essa influência de desigualdade social? Percebam, que enquanto lá, o proletário forjava essas ferragens para ornamentar as construções do burguês, aqui, o seringueiro extraia o látex para a manutenção dos luxos da elite da borracha.”
Esta forma de instigar o aluno, pautou-se quando Tolentino (2015 p. 44) sugere que “o campo do patrimônio, como sabemos, é um campo de conflitos e de construção social e, ao adentrar nele, não se pode ser ingênuo. Por isso, a educação patrimonial, para que possa ser efetiva, implica ir além do conhecer para preservar; é necessário que se propicie a reflexão crítica. E, a partir dessa reflexão, buscar a transformação da realidade.” Esta breve analogia entre os contextos que envolvem o intercâmbio entre Amazônia e Europa, causou uma excelente reação por parte dos estudantes, que entenderam a necessidade de analisar o contexto político e social destas construções, pois a partir disto, podem compreender as causas das desigualdades sociais que os rodeiam ainda nos dias atuais. Em seguida, nos direcionamos a uma das salas que o corredor da acesso, aonde foi a primeira capela do edifício.
Figura: Local da primeira capela do edifício, depois a clausura das freiras.

Fonte: acervo pessoal do autor.
Este espaço, que atualmente é utilizada como sala de aula, por seu tamanho, muito útil nos dias de revisão para a realização do Enem, estava interditada para a reforma no dia da nossa visitação, a diretora Claudete nos mostrou que uma infiltração havia consumido parte do forro, ocasionando alagamento na parede e a criação de buracos, o que pôs em relevo a preocupação com a questão da conservação do patrimônio. Inicialmente, foi a primeira capela do Orphelinato, depois passou a abrigar a segunda clausura das freiras.
Figura: Local da primeira capela do edifício, depois a clausura das freiras.

Fonte: Babi Afonso, 2017.
Com o privilégio de ter acesso aos domínios do colégio, a diretora Claudete nos direcionou ao segundo pavimento para conhecermos o local onda antes era o dormitório das internas. Nosso próximos passos são feitos em degraus bem antigos, uma escada confeccionada em madeira nos direciona ao antigo dormitório que era separado por faixa etária, cada ala tinha nome de santos católicos. O antigo dormitório das internas, é um espaço enorme, atualmente é chamado de salão nobre, ao observarem o espaço, os alunos passaram a questionar o tamanho das portas vistas por dentro do recinto, uma ao lado da outra, os respondi: “Estas portas são tendências da época, a Art Nouveau, tem construções com estas portas avantajadas também, porém, pensem na utilidade, uma quantidade grande de meninas, em um estado quente do Brasil, imaginem o calor e o quanto essas portas deixavam o ambiente ventilado e arejado.
Figura: Escadaria de acesso ao segundo andar.

Fonte: acervo pessoal do autor, 2024.
Ao chegarmos percorrermos o salão nobre, alguns alunos pareciam incrédulos com os detalhes arquitetônicos e adereços dos ornamentos que compunham inclusive as luminárias, ainda originais (excetuando-se as lâmpadas, obviamente). Ao sairmos do salão nobre, tivemos oportunidade de ir a ala externa do corredor no segundo pavimento, lá a visão privilegiada de toda a frente do terreno, composta pelo jardim e a pequena estátua de Santo Antônio, vista bem distante e que simboliza inclusive o santo pessoal do Intendente por ter nome semelhante.
Os comentários foram diversificados entre os estudantes: “nossa, é muito alto visto daqui”, “professor esse salão todo aqui era o quarto das meninas, então eram muitas né?”, respondi: “Sim, em certo período, chegou a mais de cem”, outro me chamou atenção pela curiosidade: “professor, não era perigoso essas meninas sozinhas aqui, olha a altura desse andar, e se alguma delas caísse?” a própria Diretora Claudete, pôde responder: “pra vocês terem noção da obediência que tinham nesse tempo, a educação era bem rígida, afinal era um colégio dirigido por freiras”.
Figura: Antigo dormitório das internas do Orphelinato.

Fonte: acervo pessoal do autor, 2024.
Fazendo trilha na fala da diretora, aproveitei para falar um pouco da educação das órfãs, atentando para o período da época. Lhes afirmei: “sabiam que nesse período, em vista da sociedade da época, as meninas aprendiam além dos conteúdos escolares de sempre, como leitura, alfabetização, português e matemática, tinham ainda o dever de aprender prendas domésticas, como corte e costura, bordados e por aí vai” prossegui: “e outra, estão vendo o tamanho desse terreno? O projeto inicial da construção do orfanato era de ter ensino básico de agricultura, ou seja, se a órfã não tivesse o interesse em ser dona de casa, teria um trabalho próprio para seu sustento.”
Desta forma pude fazer uma breve analogia com o ensino técnico e profissionalizante que atualmente se dispõe nas escolas, que visam formar o estudante em alguma área voltada ao mercado de trabalho, como é o case instituições como Sesi, Senai, Sesc entre outros.
Após uma pausa para o lanche com os meninos, providenciado pela diretora Claudete, nos dirigimos para o ultimo ponto de nosso percurso da visitação, chegamos até a gruta de Nossa Senhora de Lourdes, que foi inaugurada em 11 de junho de 1931, em homenagem ao sétimo centenário de Santo Antônio, que é patrono das Filhas de Sant’Anna. Rosa (2015, p. 89) nos instrui que é “uma construção semelhante à gruta original situada na cidade de Lourdes na França, sendo uma estrutura feita em pedras e composta por duas imagens e Menina Bernadett.”
Figura: Nossa Senhora de Lourdes e Menina Bernadett.

Fonte: acervo pessoal do autor, 2024.
Na ocasião a diretora Claudete nos explicou que a imagem da Menina Bernadett, ficou muitos anos fora da gruta, o maior motivo era por causa de um possível roubo da peça, já que muito do material que era da escola e que veio de Roma foi levado por terceiros logo após as irmãs da ordem Filhas de Sant’Anna terem saído do local. A diretora nos explica que somente em 2017 a imagem da Menina voltou para a gruta e que foi ela mesma que assim mandou fazer, já que é administradora da escola desde 2014, inclusive a imagem da Menina Bernadett agora se encontra direcionada para a imagem de Nossa Senhora de Lourdes por opção dela própria.
Alguns comentários surgiram entre os alunos, que parecem ter assimilado nosso exercício de percepção das condições sociais para além da mera visualização e admiração do monumento, assim uma aluna levantou uma interessante questão: “professor, quem será que construiu essa gruta? Teria sido feita por escravos?”.
“Bom, um interessante questionamento, quem foram estes trabalhadores? Pois bem, é importante pensar esse tipo de situação, porém a gruta foi erguida em 1931, o Brasil já havia abolido a escravidão a mais 40 anos, não poderiam ser escravos, porém, não se pode descartar esta possibilidade, em um país em que se tem até hoje trabalhadores em situação de trabalhos análogos a escravidão e naquele momento a gente tem a figura do seringueiro como um escravo também, talvez esses trabalhadores também nem fossem remunerados, logo, escravos ou quem sabe voluntários” respondi.
Figura: A gruta de Nossa Senhora de Lourdes.

Fonte: acervo pessoal do autor, 2024.
Uma sala a qual não tivemos acesso, foi a “sala dos governadores” é uma sala que guardava retratos de políticos como o próprio Antônio Lemos e Magalhães Barata, o meu interesse por trás da possibilidade de entrada nesta sala era o contato com o busto de Antônio Lemos, que possivelmente esteja guardado no respectivo cômodo.
O objetivo em ter contato com tal objeto, vai para a criticidade diante da personificação de um personagem político em uma pequena escultura que tem um simbolismo de grande perpetuação do poder que um dia este dito político teve. Esta ideia de perpetuação está na própria vangloriarão e na auto-homenagem que o próprio intendente a si promovia, isto é nítido entre as várias construções que ele promoveu enquanto o grande intendente de quinze anos.
A ideia que reside nessa concepção de auto homenagem, é percebida nas inúmeras iniciais “AL” presentes em edifícios feitos por ele, isto é claro na construção do Orphelinato Antônio Lemos, que esboça o brasão do intendente em vários pontos do prédio, incluindo nas gradis frontais dos portões e dos próprios corredores de acesso ao monumento, essas iniciais geralmente cercadas por folhas de seringueiras, como forma de lembrar de onde proveio a prosperidade para a possível construção.
Figura: Detalhes nas grades dos prédios faz alusão as folhas de seringueiras e as iniciais “AL” de Antônio Lemos.

Fonte: Rosa, 2015.
Quanto a concepção de perpetuação de memória do intendente, é óbvia na reprodução constante dos feitos dele por meio do próprio prédio, fundamentando a necessidade de lembrar as novas gerações, as benevolências promovidas por ele. Esta perpetuação de memória coletiva se já na nova nomenclatura do Orphelinato em homenagem a Lemos, e o busto que foi feito após sua morte e trazido para o Pará, após o traslado de suas cinzas para serem sepultadas no estado onde deixou seu maior legado. É sobre todas estas reproduções, que o professor de História precisa ponderar sua aula, tanto para não refazer o discurso que somente vangloria a política do passado, como para não correr o risco de denegrir a imagem de um dos maiores políticos que o Pará já conheceu, é necessário ter a percepção de reconhecer o que foi feito por ele, de modo a entender o porquê, para quem, e para que foi feito, sem deixar de lado as necessidades que a sociedade da época também precisava.





